Controle, medo e silêncio: o sofrimento que levou Joyce à morte

Joyce faleceu em 17 de novembro, no Instituto de Traumatologia e Ortopedia do Acre (Into-AC), após uma parada cardíaca provocada pela ingestão de medicamentos controlados

Durante a audiência pública realizada nesta segunda-feira (16) na Assembleia Legislativa do Acre (Aleac), a irmã de Joyce Araújo emocionou os presentes ao relatar, em detalhes, o sofrimento vivido pela jovem antes de sua morte. O encontro, proposto pela deputada Michelle Melo, teve como foco o chamado Caso Joyce, que envolve questões como violência psicológica, manipulação emocional e falhas institucionais.

Jaqueline Souza, irmã de Joyce/Foto: Reprodução

Joyce faleceu em 17 de novembro, no Instituto de Traumatologia e Ortopedia do Acre (Into-AC), após uma parada cardíaca provocada pela ingestão de medicamentos controlados, uma semana antes. A família responsabiliza o ex-namorado, Thiago Augusto Borges, por indução ao suicídio, além de abuso emocional e patrimonial. Em seu relato, Jaqueline Sousa enfatizou que a dor enfrentada por Joyce não se apresentou em formas comuns de agressão física. A jovem, segundo ela, sentia-se envergonhada e temerosa.

“O que aconteceu com a Joyce não foi uma cena de crime típica, com sangue, grito. Ela estava sozinha, com ele ao telefone, minuto a minuto do que ela fez, está escrito aqui, como está no meu celular e como estava no celular dela. Joyce teve vergonha de confidenciar, medo de ser culpada por sentir o que ela estava sentindo. Eu identifiquei aqui que tudo o que era uma palavra possivelmente doce virou uma exigência, controle, vigilância.”

Feminicídio psicológico: caso Joyce choca o Acre e traz um alerta  necessário | ac24horas | Notícias do Acre

Thiago Augusto Sampaio Borges tem 42 anos, é mineiro e acusado pela família da acreana Joyce Sousa/Foto: Reprodução

O grau de controle era tão severo que Joyce era obrigada a registrar sua rotina com vídeos.

“A Joyce tinha que filmar debaixo da cama, atrás da porta. Tinha que fazer vídeo em visão panorâmica. Não podia sair, trabalhar direito. Ela foi sendo esvaziada dela mesma, isolada, culpada por sentir o que estava sentindo, ficando invalidada por tudo o que falava. E está escrito aqui.”

Jaqueline relembrou o momento trágico vivido pela família em novembro.

“A Joyce morreu em novembro após tomar 70 comprimidos. Ela não aguentou mais, queria fazer parar o que estava sentindo por conta de um ciclo de manipulação, controle, violência psicológica contínua. Ninguém e nenhuma estrutura viu isso.”

Ela mencionou ainda a primeira tentativa de suicídio, no dia 7 de novembro.

“O Samu foi acionado e ela foi levada para a UPA, junto com a Duda. E ele não parava de ligar, e como eu estava em outro estado, quem poderia ir na delegacia pedir uma medida protetiva? Foi aí que liguei para o 180 e fui bem atendida.”

Apesar do acolhimento inicial, Jaqueline contou que as expectativas não se confirmaram.

“Foi uma ligação de 55 minutos em que fiquei bem confiante do que iria acontecer. Mas já se passaram 7 meses e minha informação não chegou até aqui. Recebi a informação da Secretaria da Mulher de que o serviço foi descontinuado.”

Ela apontou falhas graves no atendimento à irmã logo após essa primeira ocorrência.

“Não era pra Joyce ter ido pra UPA, é a primeira falha. Era pra Joyce ter sido encaminhada para o PS. A Joyce foi liberada horas depois. Eu, insistentemente, falava: ‘Ela não pode sair daí. Se ela sair daí, tem que ser encaminhada para um leito de saúde mental’.”

Joyce deixou a unidade médica no dia 8, e conversou com a irmã naquele mesmo dia.

“Mas a Joyce chegou movida sob remédio, sob os efeitos do remédio. No dia 8 ela foi liberada, numa sexta-feira, quando conversei com ela. Ela contou o que estava passando e foi muito difícil pra ela.”

Segundo Jaqueline, o sentimento de vergonha impediu Joyce de compartilhar sua dor com a família.

“Joyce sentia muita vergonha de nós da família pelo que ela fez. Eu ouvi e briguei com ela, porque você fica sem entender um pouco, justamente porque tem essa cultura enraizada.”

Ela confessou não ter compreendido a situação de imediato.

“Como essa menina formada em Turismo, bacharel em Direito, gerente de uma empresa, que liderava mais de 20 pessoas, comunicativa, com muitos amigos, passou por essa situação? Naquele momento eu não tive essa compreensão, mas horas depois eu caí em si e pedi desculpas pra ela.”

“Eu disse: ‘Me desculpe, minha irmã, eu estou aqui do seu lado e vou fazer o que for preciso para te ajudar’.”

Apesar do apoio, Joyce tentou tirar a própria vida novamente dias depois.

“Na segunda-feira, Joyce fez a segunda tentativa. Entrou em coma e foi para o INTO. No dia 12, eu e Duda tentamos entregar os materiais, mas foi muito difícil.”

Mais uma vez, segundo a irmã, o acolhimento institucional falhou.

“Aí outra falha. Joyce teve algumas reações e no dia 17 ela faleceu e o corpo dela foi liberado para ser encaminhado à funerária, mas não era esse fluxo.”

Jaqueline descreveu o momento delicado em que foi realizada a autópsia da irmã, ainda durante o velório.

“No dia 17, umas 8 horas, já estava pronta, mas o velório começou pela manhã do dia 18 de novembro, e ainda pela manhã nós recebemos a visita do doutor Cleiton e ele nos questionou. Recebi ainda dúvidas sobre o que aconteceu naquele dia. ‘Não foi feita a autópsia?’. ‘A Joyce precisa passar por autópsia’. Disseram que a gente tinha uma decisão a fazer: ou fazíamos naquele dia ou depois. E a autópsia foi feita naquele dia, 17h. Parou no meio do velório. O carro do IML foi buscar a Joyce. A Joyce foi retirada de dentro do caixão e foi colocada na outra maca do IML e foi levada como procedimento normal do IML. Depois, umas 21h, ela voltou. Ela voltou mais bonita ainda. Ela estava mais bonita naquele dia e voltou mais bonita. Isso foi muito difícil, tem sido difícil.”

No encerramento, Jaqueline clamou por mais atenção institucional aos casos de sofrimento psicológico feminino.

“A Joyce foi vítima de uma violência emocional que não tem nenhum tipo de hematoma, são sintomas psiquiátricos. E essa discussão aqui é justamente para que vocês possam refletir, que os órgãos públicos possam refletir. E eu pergunto: quantas Joyces estão vivas hoje e estão invisíveis? Quantas Joyces passam por esse sentimento de vergonha? Será que você não está passando por isso ou não tem um parente passando por isso? Eu nunca imaginei estar passando por isso. A Joyce morreu de uma forma que o sistema jurídico não reconhece. Joyce foi silenciada, chamada de louca, xingada absurdamente. Quando o Estado não reconhece essa morte como violência, está reproduzindo essa violência”.

“Quando o Estado ou a sociedade diz que ela ficou porque quis, está compactuando com esse ciclo de violência. Ela não ficou porque quis, ela não conseguia sair. Ela estava numa grade invisível. O caso da Joyce não foi isolado. É um resultado lógico de um sistema que não sabe reconhecer o sofrimento feminino como urgência”.

VEJA O DEPOIMENTO NA ÍNTEGRA: