O Acre no radar do petróleo: o que se sabe até agora sobre a exploração na região

Do ponto de vista geológico, a Bacia do Acre apresenta características compatíveis com a existência de petróleo e gás

Especulações sobre uma possível grande reserva de petróleo no estado do Acre, frequentemente descrita de maneira popular como um “aquífero de petróleo”, têm gerado tanto entusiasmo quanto desconfiança. Situada no extremo oeste da Amazônia brasileira, a área é considerada por alguns especialistas uma promissora zona para exploração de hidrocarbonetos, embora enfrente obstáculos de grande escala relacionados a questões ambientais, infraestrutura precária e complexidades sociais. A discussão foi levantada em análise do jornalista Bruno Teles, publicada pelo site CPG.

A bacia do Acre tem elementos que são importantes para um sistema petrolífero /Foto: G20

Do ponto de vista geológico, a Bacia do Acre apresenta características compatíveis com a existência de petróleo e gás. Ela reúne rochas potencialmente geradoras de hidrocarbonetos, como os folhelhos da Formação Cruzeiro do Sul, reservatórios porosos capazes de armazenar esses compostos e estruturas que podem funcionar como selos impermeáveis. Além disso, sua proximidade com bacias já produtoras no Peru e na Bolívia fortalece o interesse na região.

A possibilidade de exploração ali não é novidade. Desde 1935, registros apontam para atividades voltadas à identificação de petróleo. Entre as décadas de 1950 e 1990, a Petrobras conduziu investigações mais aprofundadas, perfurando 11 poços – três deles apresentaram sinais de presença de hidrocarbonetos, embora sem confirmação comercial. A descoberta do campo de gás de Camisea, em território peruano, que compartilha semelhanças geológicas com a bacia acreana, renovou o interesse de empresas e estudiosos.

Com a quebra do monopólio estatal, a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP) chegou a disponibilizar blocos para exploração na área. No entanto, dados da própria agência revelam que, em 2023, não havia contratos ativos na Bacia do Acre, o que indica uma paralisação ou, no mínimo, um ritmo muito lento de prospecção recente.

É necessário ter cautela devido ao impacto ambiental que poderia ocorrer caso houvesse extração de petróleo na região/Foto: © Shutterstock

Apesar do cenário de baixa atividade, há indícios de que o subsolo local possui algum dinamismo petrolífero. Relatos de manchas de óleo em poços e pequenas liberações de gás na superfície (as chamadas microexsudações) sugerem a existência de um sistema ativo. A ANP estima um volume total de gás natural “in situ” – ou seja, armazenado na rocha, independentemente da viabilidade de extração – de aproximadamente 2,2 trilhões de pés cúbicos na bacia.

Transformar essa estimativa em produção efetiva, no entanto, exige superar inúmeros entraves. O primeiro é logístico: a região é de difícil acesso, com infraestrutura extremamente limitada. A ausência de estradas adequadas, oleodutos e demais meios de escoamento torna os custos operacionais consideravelmente elevados.

Além disso, os impactos ambientais são motivo de grande preocupação. Operações em grande escala podem levar ao desmatamento, à degradação de ecossistemas sensíveis e à contaminação de corpos d’água, incluindo aquíferos que abastecem comunidades inteiras e sustentam a biodiversidade da floresta, como o sistema hídrico do Solimões.

Por fim, há questões sociopolíticas delicadas. A região abriga uma série de Terras Indígenas – apenas no Alto Juruá são 29 – além de Unidades de Conservação. Qualquer projeto na área enfrenta um processo rigoroso de licenciamento ambiental e, principalmente, a necessidade de obter o consentimento das populações locais, o que envolve negociações complexas e frequentemente demoradas. A ausência dessa “licença social” pode inviabilizar completamente as iniciativas.