O mais novo problema envolvendo o bolsonarismo, como são definidos os seguidores do ex-presidente Jair Bolsonaro, e a Rede Globo de Televisão, ainda a maior emissora de TV do país, grupo fundado pelo falecido jornalista Roberto Marinho, atende pelo nome de Glória Perez, a famosa novelista natural de Rio Branco, no Acre. Nascida no Rio de Janeiro, mas que viveu em Rio Branco até a pré-adolescência e foi transferida para Brasília, a autora, de 78 anos, ganhadora de um dos maiores prêmios internacionais da televisão mundial, o Emmy Internacional, pela novela Caminho das Índias, de 2009, estaria se aproximando cada vez mais do movimento bolsonarista, como são chamados os seguidores do ex-presidente Jair Bolsonaro, e criando problemas para a Rede Globo.
No último domingo (16), quando os bolsonaristas se reuniram em Copacabana para uma manifestação pró-anistia para os presos e condenados pelos atentados à Praça dos Três Poderes, em Brasília, no dia 8 de janeiro de 2023, Glória Perez postou no Instagram uma imagem de transmissão do canal da Revista Oeste, alinhada à direita, da manifestação convocada pelo ex-presidente Jair Bolsonaro no Rio. Ela já havia se manifestado anteriormente a favor de pautas conservadoras e sinalizado apoio ao bolsonarismo. É uma estranha no ninho, já que a maioria da classe artística está à esquerda no espectro político.
Em sua última novela, Travessia, Glória bancou a presença de dois atores de direita, Cássia Kis e Humberto Martins. Nas redes sociais, houve protestos e pedidos de boicote à obra.
Esse novo posicionamento da dramaturga eleva a tensão na Globo a respeito de seu próprio projeto, uma novela que deveria substituir Vale Tudo em setembro ou outubro, mas foi adiada para 2026. O teor político seria o motivo do atraso.
Um dos protagonistas é do Sul do país, região majoritariamente conservadora e simpática a Bolsonaro, com forte pensamento separatista e onde proliferam células neonazistas investigadas pela polícia. Um prato cheio para os desafetos atacarem Glória Perez.
Como cidadã, ela tem o direito à liberdade de expressão, incluindo aceno ao bolsonarismo. Como contratada da Globo, cria uma situação delicada em uma emissora que oscila entre o progressismo e o tradicionalismo, já que seria impensável o canal tentar censurar a autora. Por outro lado, ao solicitar mudanças em sua novela, mostra temor em desagradar a certos grupos na sociedade e causar controvérsia potencialmente prejudicial à audiência em ano eleitoral.
Glória Perez é a única autora da Globo que sinaliza simpatia às pautas defendidas por Bolsonaro. “Manifestação pacífica no Rio em defesa da anistia. Povo lota praia de Copacabana na manhã deste domingo”, disse a autora em sua transmissão no Instagram no dia da manifestação no Rio.
Em dezembro de 2022, depois da vitória do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT), ela respondeu a um vídeo do deputado federal Girão Monteiro (PL-RN), no qual ele dizia que as Forças Armadas deveriam ser acionadas para defender os brasileiros do comunismo. “Vacina”, escreveu a autora. No mesmo ano, Glória rebateu o comentário de uma internauta criticando a novela Travessia, escrita por ela. “Fez o L, é fia?”, perguntou.
Glória é filha do advogado Miguel Jerônimo Ferrante e da professora Maria Augusta Rebelo Ferrante. Sua mãe era filha de um piauiense com uma cearense. Seu pai era filho de italianos e atuou durante muitos anos como jurista no Acre, na época em que o estado ainda era Território Federal.
Seu avô, italiano, trabalhava como operário mecânico e fugiu de São Paulo por ter sido denunciado por envolvimento com o movimento anarquista. No Acre, conheceu a avó de Glória, uma viúva italiana com quatro filhos pequenos, com quem se casou. Apesar de a família viver no Acre em 1948, seus pais preferiram que ela nascesse na cidade do Rio de Janeiro, então capital federal. Após o nascimento, voltaram ao Acre. Morando em Rio Branco, ela revelou ter tido uma infância simples, quando nadava em rios e subia em árvores, mas que sempre gostou muito de ler e escrever e era dedicada aos estudos. Aos quinze anos, sua família mudou-se para a recém-construída capital federal para que ela pudesse continuar estudando, pois em Rio Branco, naquela época, só havia escolas até o ginásio.
Em Brasília, cursou o ensino médio em escola pública e entrou para a Universidade de Brasília (UnB), onde cursou três anos de Direito, abandonando o curso em 1968, quando a universidade foi invadida por militares. Na época, queria cursar História, mas seu pai não a deixou se mudar sozinha para o Rio de Janeiro, onde tinha parentes paternos, só conseguindo se mudar um ano depois, já com o noivo, o qual conheceu em Brasília. No Rio, prestou vestibular e passou, mas só se formou em História pela UFRJ após o nascimento dos filhos. A autora chegou a cursar mestrado em História do Brasil, também na UFRJ, mas não chegou a defender sua tese. Durante sua elaboração, aceitou o convite de Janete Clair e optou pela carreira na televisão.
Em 1969, após um ano vivendo juntos, casou-se com o engenheiro Luiz Carlos Saupiquet Perez (1940–1994), falecido de leucemia. O casal teve três filhos: Daniella (1970–1992), Rodrigo (1972) e Rafael (1977–2002). Glória e Luiz Carlos se divorciaram em 1984.
Duas tragédias abalaram a vida de Glória: em 28 de dezembro de 1992, sua filha, a atriz Daniella Perez, então com 22 anos, foi assassinada. Na época, Daniella atuava na telenovela De Corpo e Alma, que era escrita por Glória. O crime foi praticado por Guilherme de Pádua, também ator e que contracenava com Daniella na mesma novela, e sua mulher Paula Thomaz. O impacto dessa tragédia na vida de Glória e o receio de que os réus fossem beneficiados pela Justiça moveram a autora em uma campanha apoiada pela grande mídia, que recolheu mais de um milhão de assinaturas, resultando na inclusão desse homicídio na Lei dos Crimes Hediondos.
Quase dez anos depois, em 28 de novembro de 2002, morreu, aos 25 anos, o filho caçula de Glória, Rafael, portador de Síndrome de Down. Ele estava internado havia dez dias em um hospital de Brasília e tinha sido submetido a uma cirurgia para reverter uma torção intestinal, mas não resistiu a uma infecção pós-operatória.
Glória tem quatro netos, filhos de Rodrigo, que é casado. Em 2009, enfrentou outro drama: descobriu ter um linfoma, um tipo de câncer, e passou todo esse mesmo ano realizando cirurgias e sessões de quimioterapia, além de ter precisado consumir vários medicamentos regularmente, tendo se curado da doença.
Seu retorno à mídia, nos últimos dias, no entanto, nada tem a ver com seu passado de autora renomada ou de uma acreana saída da floresta para conquistar o mundo. Tem sido pelo que parece ter revelado, enfim, suas afinidades com os ideais de Jair Bolsonaro. Glória Perez é nome de uma escola pública em Rio Branco, no bairro Xavier Maia, em homenagem à escritora.
