Betão: “O Idaf deixou de agir com aquele rigor policial, de primeiro multar para depois conversar”

As rugas e queixas recíprocas entre pecuaristas e o Instituto de Defesa Agropecuária e Florestal (Idaf), órgão do Governo do Estado criado em 2003, com trocas de acusações de excessos de fiscalização para resultar em cobranças de propinas e acusações, por parte dos fiscais, de que pecuaristas e industriais da área atuavam de forma a serem beneficiados com as irregularidades, de qualquer jeito, fazem parte do passado. E não é de um passado tão longe assim.

As mudanças de paradigmas, que vêm resultando em parcerias com melhorias práticas entre os atores, os chamados dois lados com interesses diferenciados e até antagônicos, que deixaram de ser opostos, aconteceram a partir da posse do médico veterinário José Francisco Thum na direção do órgão, em 2020, a convite do governador Gladson Cameli, no auge da pandemia do coronavírus.

José Francisco Thum, diretor-presidente do Idaf/Foto: Sérgio Vale

Um dado que já na época da pandemia chamou atenção: o Idaf foi um dos poucos órgãos do Governo que não paralisou suas atividades naquele período, com seus fiscais indo a campo, mesmo em meio à doença e não foram poucos os profissionais que contraíram o vírus.

Um dos fiscais que contraíram o vírus, Álvaro Ferreira dos Santos, engenheiro agrônomo que atuava na fiscalização de venda de vacinas e de outros produtos em casas de comércio de bens utilizados na atividade agropecuária, morreu em dezembro de 2020. Mesmo assim, sob os riscos, o serviço de fiscalização às casas agropecuárias e às propriedades rurais e outras atividades do Idaf não pararam.

Equipe de inspeção/Foto: cedida

“Isso fez parte do compromisso que assumimos na gestão. Quando o governador me convidou para dirigir o órgão, logo eu que em mais de 30 anos de atividades no Acre, só atuei no segmento privado, percebi que era um grande desafio. Mas resolvi encarar com a promessa de, ao final da nossa administração, entregar o Idaf entre os três melhores órgãos do gênero no país”, disse o diretor-presidente Chico Thum.

Os três melhores órgãos de fiscalização do gênero no país, aos quais Chico Thum quer ao final da gestão igualar o Acre, são os de Santa Catarina, Rondônia e Goiás, todos bem avaliados tanto pelo Ministério da Agricultura como também pela CNA (Confederação Nacional da Agricultura), a entidade sindical responsável pela representação e defesa dos interesses dos produtores rurais comerciais do Brasil, com destacada atuação no âmbito federal, junto ao Congresso Nacional, ao Governo Federal e os tribunais superiores.

O Acre é um forte candidato a figurar entre os melhores órgãos do gênero no país porque, até aqui, atingiu todas as metas que foram postas.

De acordo com a entidade, o rebanho bovino do Acre está na ordem de 4 milhões de cabeças. Os rebanhos desses três estados, assim como o do Acre, estão livres da febre aftosa sem vacinação.

Além do Acre, no Brasil somente os estados de Santa Catarina, Paraná, Rio Grande do Sul, Rondônia e partes do Amazonas e do Mato Grosso têm o reconhecimento internacional de zona livre de febre aftosa sem vacinação pela OMSA (Organização Mundial de Saúde Animal), cuja sede fica em Genebra, na Suíça, e de lá emitiu certificados em relação aos rebanhos dessas localidades brasileiras.

O Acre é um forte candidato a figurar entre os melhores órgãos do gênero no país porque, até aqui, atingiu todas as metas que foram postas. “Trabalhamos durante a pandemia, quando, infelizmente, colegas morreram de Covid, mas, mesmo assim, fomos considerados órgão essencial”, avalia o chefe da fiscalização do Idaf, Jonas Celestrini Junior.

Chefe da fiscalização do Idaf, Jonas Celestrini Junior/Foto: cedida

“Se a atual administração do Idaf quer ficar entre as três melhores do país, do jeito que o órgão vem atuando, vai conseguir”, disse o pecuarista Edilberto Moras Júnior, o “Junior Betão”, ex-deputado federal que hoje é o CEO dos empreendimentos da empresa cujo nome de fantasia é “Piracema”, voltada para a pecuária e abate de animais bovinos com plantas frigoríficas na capital e interior, com abate mensal da ordem de três mil a quatro mil cabeças. “Betão” tem sido o primeiro pecuarista a vir a público elogiar o Idaf face à nova relação com o setor produtivo.

Junior Betão/Foto: cedida

“Eu conheço outros estados e acompanho a fiscalização e tenho dito aos meus companheiros que poucos estados têm a boa relação que está sendo construída pelo Idaf com os produtores”, disse. “Isso se deve muito também à mudança de mentalidade dos produtores através do nosso Sindicato”, acrescentou.

A entidade que congrega os produtores e abatedores é o Sindicato das Indústrias de Frigoríficos e Matadouros do Estado do Acre (Sindicarnes), cujo presidente é o pecuarista Murilo Leite, que concorda com as mudanças vivenciadas nas relações entre o Idaf e os produtores.

Os mesmos elogios partem do empresário Paulo Santoyo, das indústrias “Acre Aves” e “Dom Porquito”, situadas em Brasileia, interior do Acre, que exporta seus produtos para vários países ao redor do mundo. “Isso só é possível graças ao trabalho do Idaf, que não só fiscaliza, mas nos orienta em relação às exigências dos mercados”, diz o produtor.

“O Idaf deixou de agir com aquele rigor policial, de primeiro multar para depois conversar. Hoje, eles conversam, orientam e, mesmo fazendo seus trabalhos, não há mais aquela sensação de os produtores sempre tratados como criminosos.

Foi exatamente isso que mudou na relação do Idaf e os produtores, aponta “Junior Betão”. “O Idaf deixou de agir com aquele rigor policial, de primeiro multar para depois conversar. Hoje, eles conversam, orientam e, mesmo fazendo seus trabalhos, não há mais aquela sensação de os produtores sempre tratados como criminosos.

O Idaf nos respeita e nós respeitamos o que eles fazem”, disse o empresário. “Tenho dito aos meus companheiros que, ainda que possa existir, aqui ou acolá, um excesso, não poderemos mais permitir que a corda seja esticada e essa boa relação que construímos, deixe de existir”, destacou.

A melhoria nas relações entre fiscais e fiscalizados – que também foi possível graças às ações do governador Gladson Cameli, “sempre sensível ao setor e que muito tem ajudado na restruturação, inclusive física do Idaf”, na avaliação do produtor -, são tão boas que “Júnior Betão” chega a defender melhoria remuneração dos fiscais e do pessoal de apoio do Idaf. “A gente reconhece que o governador chamou novos fiscais e que tem atendido as reivindicações da categoria, mas a gente reconhece que todos ali trabalham com dedicação e empenho e por isso necessitam de uma melhor remuneração”, disse.

Em agosto do ano passado, o governo do Estado empossou mais 14 novos servidores públicos aprovados em concurso para reforçar o compromisso do governador Gladson Cameli de fortalecer as equipes dedicadas à preservação do patrimônio agropecuário e dos recursos florestais do Acre.

Foram empossados dois técnicos em defesa agropecuária e florestal, além de 12 auditores fiscais estaduais agropecuários, para atuação em localidades como Rio Branco, Bujari, Epitaciolândia, Sena Madureira e Xapuri. Na época, o presidente José Francisco Thum destacou o trabalho dos servidores do órgão afirmando como fundamental para assegurar, entre outras atribuições, a continuidade das ações de combate à Monilíase.

Trata-se de doença do cacaueiro e do cupuaçuzeiro, causada pelo fungo Moniliophthora roreri, que ataca diretamente o fruto em qualquer fase do seu desenvolvimento e que uma vez instalada nas plantações, causa grandes perdas econômicas, podendo pode comprometer até 100% da produção e que esteve presente em plantios de Rondônia e coube ao Idaf agir para que o fungo não se espalhasse no Acre.Além disso, o outro compromisso do Idaf se deu pela manutenção do status internacional Área Livre de Febre Aftosa sem Vacinação.

O chefe da fiscalização do Idaf, Jonas Celestrini Junior, diz que, que apesar das dificuldades que todo órgão e o governo têm, sua equipe vem realizando o trabalho de forma técnica e da melhor maneira possível.

Paulo Santoyo/Foto: Alexandre Lima

“O Idaf passou por uma transformação ao longo desses últimos 4 anos. Foi muito bem estruturado quanto a veículos, computadores, reformas nos prédios e contratações de servidores. Cada vez mais buscamos atender bem a sociedade, os produtores e empresários. A reivindicação por parte dos servidores é para que tenhamos um olhar mais diferenciado por parte do governador quanto a nossa valorização. O Estado teve avanços importantes como a retirada da vacinação contra febre aftosa e o SISBI”, diz o chefe da fiscalização.

O SISBI é a sigla do Sistema Brasileiro de Inspeção de Produtos de Origem Animal (SISBI/ POA), que faz parte do Sistema Unificado de Atenção a Sanidade Agropecuária (SUASA) e que reúne diferentes serviços de inspeção do Brasil, aos quais o Acre está inserido. “Além das ações de fiscalização, o órgão tem adotado cada vez mais o papel de orientar através da educação sanitária, sempre tentando trazer o produtor para o nosso lado, mas mantendo a vigilância e defesa sanitária”, acrescentou.

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